A quarentena do Zé Quaresma

Tudo ia bem naquele meio de abril.

A chuva caiu na hora certa. O preço do leito subiu. A roça de milho granou.

A pastaria enverdejou como nunca se vira antes. As vacas engordaram e encheram os baldes de leite branquinho. Tudo ia às mil maravilhas naquela rocinha perdida nos fins de mundo. Ali quase não chegava ninguém. Salvo algum desavisado que perdia o caminho. E logo retrocedia depois de informado do equívoco.

O sol brilhava naquela manhã de segunda-feira. Nenhum indício de chuva no alto. Apenas o azul que ofuscava a retina.

E Zé, madrugão como sempre, antes das cinco já se punha de pé.

Era final de semana santa. Como de costume não houve procissão. Era devido a tal endemia que se alastrava pelo mundo inteiro. Todos se mantinham isolados. Nas ruas do lugarejo nada se via. A não ser algum desavisado andando pelas ruas semi- desertas.

Mas nada mudou na rotina o pobre Zé.

Pela televisão o solitário homem do campo assistia ao noticiário. Era só noticia ruim. Mortes, hospitais lotados, velórios vazios, pessoas sendo enterradas em covas feitas de véspera.

E o comércio de portas fechadas. Levando à bancarrota os pobres comerciantes. Que nada conseguiam vender. E ficavam a espera do desfecho da tal pandemia.

Mas para Zé, apelidado de Zé Quaresma, nada mudou. Ele se mantinha isolado por opção própria. Já que nenhuma alma viva nem morta morava em sua companhia. A tal virose maldita jamais aparecia por ali. Já que o tal vírus desconhecia a estrada.

Naquela manhã de segunda feira Zé começou do dia cuidando das vacas. Era hora da ordenha. Mais de trezentos litros de leite quentinho seriam recebidos pelo caminhão leiteiro. Era a sua produção de cada dia.

Zé era feliz e bem o sabia. Mesmo vivendo solitário, naquelas plagas semidesertas, ali se sentia no paraíso.

Era tempo de quaresma. E ele precisava ir à cidade. Não para acompanhar a procissão. Bem o sabia que naquele ano nada aconteceria. As igrejas estavam de portas fechadas. Pessoas eram recomendada a não sair às ruas.

Mas, naquela manhã de segunda- feira,  Zé Quaresma, depois das tarefas concluídas, arriou o cavalo baio. E foi naquela montaria à cidade perto. E não era tão perto assim. Mais de duas léguas o separavam daquela comunidade.

Ali aportou antes das nove horas. Foi a um supermercado. Uma fila enorme se formava à porta do estabelecimento. Todos usando máscaras. Parecia um dia de carnaval.

Zé deixou o cavalo amarrado a um poste. E esperou placidamente a sua vez de entrar naquela loja.

Comprou estritamente o necessário. Pagou em espécime. E, quando chegou ao lugar onde havia deixado o cavalo atado uma surpresa desagradável o esperava.

Alguém, por certo um gatuno safado, acabou por levar a sua montaria.

Foi ligeiro a uma delegacia prestar queixa do infausto acontecido.

Um policial mal encarado mal teve tempo de ouvir-lhe os queixumes. Apenas avisou-lhe, que devido a sua idade, não deveria sair às ruas. Que deveria usar máscaras. Que o tal isolamento era fundamental.

Zé acabou desistindo de encontrar o cavalo. Voltou a sua rocinha querida de carona no velho caminhão leiteiro.

Ali chegou bem tarde da noite. Era uma noite estrelada. Um céu escuro indicava começo de outono. Um ventinho fresco assobiava do lado de fora da casa.

Naquele dia Zé quase não saiu de casa. Sentia-se mal. Uma tossezinha incômoda o fez ficar na cama. De repente a temperatura subiu.

Zé passou toda a quaresma recostado ao leito. Foi-lhe diagnosticado o tal coronavirus. Que não passou de uma gripinha marota. Não deixando sequelas naquele corpo rijo. Acostumado às agruras da vida.

Assim tem acontecido à maioria das pessoas. Que não se prestam a ficar em confinamento. Elas, como eu, pensam que o melhor, nestas semanas de crise, é voltar ao trabalho. Desde que seja com cuidados especiais. Acredito que o país não pode parar. Senão vai ser ainda pior. Do jeito que está só deve piorar.

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