Todos os são

Dias existem que acordamos com o pé trocado.

Noite mal dormida, cheia de pensamentos ruins, no dia anterior nada deu certo, e, ao acordarmos nosso desejo é continuar na cama, cobrir a cabeça, e imaginar que tudo que passou foram meras conjecturas, pensamentos negativos, sonhos imaginários.

E acabamos por maldizer aquele novo dia como se fosse o último de nossa vida.

Deixamos a casa de mau humor. Na rua mal cumprimentamos os passantes. Muito menos retribuímos aqueles bons dias recebidos de desconhecidos. Pra nós a semana terminou muito pior que começou.

Lá fora o sol brilha. O azul do céu predomina.

Trata-se de uma sexta-feira. Mais um final de semana que se anuncia.

Amanhã é dia de ir à roça. Refazer as energias após uma semana ingrata. Nada deu certo. Tudo parecia conspirar contra nós.

Ao chegar ao meu palmo de chão quase sempre encontro, pelo caminho, um senhor bem rodado em anos.

Seu Aristeu conta com exatos noventa anos. Ainda rijo. Lúcido, até nos dias de hoje trabalha duro.

Dizem, nos arrabaldes, que ele é um enxadachim de primeira. Tira tarefas até nos dias de hoje. Sozinho ainda da conta de dez vacas leiteiras.

Quase sempre paro para um dedo de prosa. Ele pra mim é um exemplo de como se deve encarar a vida. Sempre pelo seu lado risonho. Sorrir para ele não é novidade.

Naquele breve colóquio, depois de parar a caminhonetinha, aperto-lhe a mão efusivamente. E ele sempre me responde: “por onde anda meu amigo. Sinto-lhe a falta. De vez em quando dá uma paradinha aqui para conversar comigo.”.

Trocamos duas dúzias de palavras. “Como anda a sua vida”. O que tem feito? Ainda trabalha”?

“Eu”? Responde Seu Aristeu. “Não tenho do que me queixar. Saúde a tenho a dar aos outros. O que me diverte é trabalhar”.

Ficamos um par de minutos a prosear. Confidencio-lhe meu mau humor. Um desânimo toma conta de mim. Por vezes amaldiçoo o dia que começa. Saio à rua sem vontade nenhuma de trabalhar.

Depois de uma prosa boa, na despedida, depois de apertar-lhe a mão, mais uma vez me despeço maldizendo aquela tarde rica em sol.

“É, amigo. Não todos os dias são abençoados. Este, por exemplo, parece que vai ser como os outros. Somente coisas ruins têm me acontecido. Quem sabe amanhã a coisa vai melhorar”.

Seu Aristeu, sorrindo na sua banguelice brejeira, interpela-me cordialmente: “quer saber? Meu preclaro amigo. Todos os dias são abençoados. Só depende do seu estado de espirito. O que lhe vai por dentro é o que importa”.

Deixei-o com sua vã filosofia. É não é que ele tinha razão?

Em verdade todos os dias os são. A partir de então mudei a minha convicção. Olhei pro lado, agorinha mesmo, e percebi meus peixinhos do aquário a sorrirem em minha direção.

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