As sibipirunas da Carlota Kemper

Nem lhes imagino a idade.

Quando nasci elas já estavam por lá.

Creio que são mais que centenárias. Plantadas por alguém que não mais faz parte deste mundo.

Aquela rua, por onde sempre passo, ao cair das tardes, me leva a outra rua, intrinsecamente ligada ao meu passado.

Aquelas árvores vetustas, perfiladas uma a uma, não só ensombreiam aquele passeio, como também emprestam beleza àquele caminho.

Quem por ali passa sem querer volta os olhos ao passado. Por detrás daqueles muros altos ainda vive um grande colégio. Foi ali que estudei. Nos verdes anos da minha juventude.

Que saudades daqueles tempos recheados de sonhos. Onde, menino ainda, não via a hora do término das aulas. E passava horas assentado naqueles bancos da praça. A mesma que até nos dias de hoje faz parte do meu presente.

Dizem que as velhas sibipirunas são estraga- prazeres das calçadas. Que elas, por suas raízes que tentam respirar, destroem os passeios. E, num dia, tomara seja um dia longe, talvez sejam substituídas por outras árvores menos destruidoras.

Todas as tardes passo por aquela rua. E agradeço as sibipirunas pela sombra ofertada.

Tenho o devido cuidado para não tropeçar nas raízes. De vez em quando um galho quebrado se estende no meu caminho. Folhas secas servem de leito aos meus passos. E as velhas sibipirunas atravessam o tempo. Inserindo frescor nestes dias quentes.

Talvez quem as plantou não sabe como elas estão nos dias de agora. Seria a dona Carlota Kemper? Ou melhor, alguém de sua família, ou algum aluno que nos dias de hoje não mais esteja presente.

Sempre passo por aquela rua. Olho as sibipirunas. Com olhos recheados de nostalgia.

Quem sabe um dia, quando não mais estarei presente, apenas minhalma vagueia, ao passar por aquela rua, me lembre das velhas sibipirunas. E delas me recordarei com saudades.

Aquelas velhas árvores de rica sombra um dia não mais estarão destruindo passeios. E nem mesmo espalhando folhas secas. Por aquele caminho que ainda hoje percorro ao cair das tardes.

Daqui do alto posso admirá-las. Mesmo de longe desejo saudá-las.

As velhas sibipirunas da Carlota Kemper sempre estarão a ensombrar caminhos.

Oxalá por muitos anos mais. Não apenas enquanto eu existir. E sim por tempos infinitos.  Quando  a minha memória não me deixar parar de sonhar.

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