Depois da tempestade o céu azuleia

Não é à-toa que aprecio os modos vivendi da roça.

Aquela gente boa, que aprecia um dedo de prosa, principalmente ao cair da tarde, ainda cedo, por volta das cinco e meia, assentado naquele banquinho tosco de madeira, se prepara para dormir. Já que para eles acordar ao cantar do galo faz parte da sua rotina.

Assim é o amigo Zé Antônio.

Pela conta dos anos ele coleciona bem mais de vinte anos. Dizem os entendidos que ele tem mais que o quádruplo do que apregoa.

Pra mim, que o conheço desde quando comprei minha rocinha prejuizenta, pelas minhas contas imperfeitas ele tem quase noventa.

De vez em quando paro pertinho da sua pessoa. Desço da minha caminhonetinha prateada no meio da estrada. Já que por ali quase não passa ninguém.

Aperto-lhe a mão cascorenta. Via de sempre ele sorri. E me pergunta: “pur onde anda vosmecê”?

E eu respondo: “Por aqui e por ali. O trabalho ainda me apoquenta. Em breve vou me aposentar. E vou passar mais tempo pelas bandas de cá”.

Isso já era quase cinco da tarde. De uma tarde de céu azul. Até demais.

E como tem chovido pelas Minas Gerais.

Chove a escorrer água da encosta. Enchentes enlutam famílias inteiras. Rios transbordam levando casas a reboque. Pessoas perdem tudo que conquistaram a vida inteira.

De repente o céu se fez azul. De um dia para outro. Parece que a chuva vai dar tréguas.

Estamos no final de janeiro.

Naquele sábado de céu azul parei um cadinho para prosear com o amigo Zé. Era por volta das cinco da tarde. No alto nenhum sinal de chuva. O céu de um azul anilina indicava uma linda tarde.

Ele bocejava de sono. E convidou-me para jantar.

Entrei em sua casa por alguns pares de minutos. A janta estava prontinha. Arroz, feito na hora, feijão colhido na horta, carne de porco adormecida na lata, uma couve verdinha feita naquela hora. E um angu de fubá novo estava pronto para acompanhar aquele lauto banquete. Já ia me esquecendo do torresmo de barriga, crocante como ele só.

Passamos quase uma hora inteira jogando conversa fora.

Quando o relógio de parede indicava seis da tarde percebi que o amigo Zé quase dormia recostado à cadeira.

Despedimo-nos na porteira. Depois de prometer voltar noutro dia.

Era uma tarde linda. Céu azul, nenhuma nuvem no alto.

Ainda me lembro das derradeiras palavras do amigo Zé Antônio.

“Eu não disse”? Depois da tempestade o céu azuleia”.

Desde então não tenho mais dúvidas sobre a sabedoria da boa gente da roça.

Com eles aprendo muito. A inventar mentiras então me tornei experto. São mentirinhas banais. Invencionices minhas. Que não passam de causos e loisas da roça. Lugar que apreceio cada vez mais.

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