Nem sempre a prudência é uma virtude. Jovens não costumam deixar pra depois.
Só com a idade chegando, as cãs instalando-se nas têmporas, a velhice nos cavalgando as costas, nos acostumamos a deixar pra depois.
Eu mesmo já fui mais intempestivo. Quando queria ir naquela hora nada me impedia. A prudência não era minha maior companhia. Como mais tarde, no decorrer dos anos, aprendi a controlar meu ímpeto.
Hoje mesmo estava combinado de ir à roça. Por volta das nove deixaria o conforto da cidade para ver como estaria a obra da minha piscina. Que não termina nunca.
Durante a noite choveu a encher baldes. E continua a chuva despencar. O céu se mostra cinzento. Do lado de fora da minha janela pingos de água caem frenéticos. Mal se vê o casario baixo. Chuva, enchentes, catástrofes enlutam o país inteiro.
Não fui acostumando a deixar pra depois. Nos dias de hoje mudei de atitude.
Nos tempos idos, quando jovem, não obedecia aos conselhos dos meus pais. E só mais tarde percebi como estava errado.
Ter comedimento nos atos é considerado coisa dos mais velhos. Embora não me sinta velho a idade me mostra o contrário. Saber esperar a hora certa deve ser prerrogativa dos espertos. Não aquela esperteza alardeada pelos safados. Neste país onde alguém disse: “vamos levar vantagem em tudo, certo”?
Já pensei que aquele que sabe esperar um dia cansa. Mas quem disse que descansar não faz bem de vez em quando?
Conheço um compadre, daquela mesma rocinha que ainda me encanta, que, debruçado nos seus calcanhares, mascando um cigarrinho de palha apagado, quando passo por ele apressado, calmamente ele me diz: “calma. Por que correr tanto se o mundo não está sujeito as suas vontades”.
Em verdade não existe razão para tanta sofreguidão. Já atingi a maior idade. Já tenho netos. Imagino que não terei bis.
Já vivi mais da metade da minha existência. Segundo minhas contas, aos setenta e alguns dias a mais, por que razão perder a mesma razão, para tentar abraçar o mundo com minhas mãos?
Deixei a intempestividade para os mais jovens. Aprendi a domesticar a ansiedade.
Deixar pra depois, na melhor ocasião, só tem me feito bem.
Hoje gostaria de ir à roça. Mais tarde, num dia de sol, quando a chuva serenar, aí sim.
E não mais vou me mudar para Pasárgada. Pois aqui sou amigo das gentes. E tenho a mulher que quero na cama que escolherei.
Deixo, nesta breve missiva, meu conselho aos jovens.
Não se apressem muito. Aprendam a deixar pra depois. Quem sabe noutro dia a vida vai melhorar. E se, não melhorar muito, deixe como está. Satisfaçam-se com o que conquistaram. E nunca deixem de sonhar.
Hoje adiei um desejo. Mas jamais a vontade de viver.