Hoje amanheceu com um céu claro. Algumas nuvens se deixam ver.
O sol promete brilhar no decorrer do dia. Chuva, nem parece que vai cair.
Na roça do amigo Zé o dia amanheceu do jeito de ontem. Estrelas brilhavam durante a noite.
O azul do céu predominava. Nenhum indício de chuva no alto.
Era outubro em seus estertores finais. Novembro se anunciava. Era tempo de chuva. De arar a terra, nela semear semente, o trabalho seria dobrado naquele final de ano que se anunciava.
Zé sonhava com dias melhores.
Afinal o ano que finava não foi dos melhores. Apesar de trabalhar duro a renda do leite cada vez mais minguava.
Por sorte Zé não tinha família. Era apenas ele e ninguém mais para da terra tirar o sustento.
Zé morava num pedacinho de chão perdido entre o nada e o fim do mundo. Ali, quando alguém chegava, por aquela estradinha de terra batida com certeza teria se equivocado do caminho. Raras vezes Zé recebia visita. E quando aparecia algum desavisado era para tentar receber alguma dívida atrasada. Zé era considerado bom pagador. Salvo por alguma adversidade do destino.
Naquele mês de outubro era tempo de começar o plantio da safra de milho. Daí a importância da chuva que deveria cair naquele final de ano.
Zé acordava cedo. Abria a janela, olhava pro céu, e mal tinha tempo para contar as estrelas.
Antes das cinco da madrugada Zé tinha de começar a primeira ordenha. E, depois do leite derramado no tanque de expansão, logo o caminhão leiteiro buzinava no alto do morro. E, na maioria das vezes o pobre retireiro tinha de levar o produto das tetas das vacas morro acima.
A renda do leite cada vez mais minguava. Quase não era o suficiente para manter o prejuízo.
Naquela manhã de quarta-feira o sol despontou cedo do seu lençol de nuvens. Nenhuminha nuvem negra indicava a presença de chuva. E como ela seria benvinda nos ares da roça.
Quarta cedeu lugar a outra quinta. Sexta-feira se anunciava preguiçosamente.
De repente, sem nenhum aviso do alto, nuvens negras cobriram o azul do céu.
Felizmente a chuva deu o ar da graça. Foi o suficiente para que Zé sorrisse com a dentadura à mostra.
Foram dias de chuva continuada. A terra agradeceu a oferenda dos céus.
A colheita foi farta naquele resto de ano. A vacada agradeceu. Zé, de joelhos postados à terra, fez uma oração ao pai protetor das almas.
Foi um mês de intensas chuvas. A roça de milho vingou. As jabuticabas amadureceram.
Foi o suficiente para ver desenhado na face crispada do Zé um sorriso alentador.
Naquela noite, de uma quinta-feira, final de outubro, Zé quase não fechou os olhos. Passou a noite em claro. Embora fosse uma noite escura.
Graças as nuvens negras a vida do Zé mudou. Pra melhor.
Até hoje, quando passo na roça do amigo Zé, olho pro alto. E, assisto a transformação do azul do céu para um dia nublado. Por certo a chuva irá voltar. E torço pra que isso aconteça.
Nuvens negras, ao contrário do que se vê na cidade, para muitos é motivo para celebrar.