Que situação complicada vivia o pobre Zé.
Desde jovem, desempregado, Zé vivia de teimoso.
Aos dezessete anos deixou a escola. Tinha de trabalhar para ajudar em casa. Já que o pai, alcoólatra inveterado, chegava à casa a passos trôpegos. Batia na mulher e maltratava o infeliz Zé, que naquela época vivia escondido debaixo da cama, receoso da chegada do progenitor.
Mesmo assim Zezinho sobreviveu. Aos vinte anos, completos naquele ano de dois mil e novecentos e noventa e nove, por fim conseguiu o primeiro emprego.
Foi empregado numa loteria. Passava metade do dia fazendo entregas. Ia da loja aos bancos, levando somas de dinheiro enormes. Corria o risco de ser assaltado. O que aconteceu num certo dia.
Já era tarde da noite, final de expediente, quando o infeliz Zezinho saiu com um malote recheado de notas graúdas. Não bem deixou a casa lotérica foi rendido por um motoqueiro. O qual lhe apontou uma arma. Mal sabia ele que era de mentira.
Não adiantou fazer o BO. Nunca mais o assaltante foi visto. Mas sobrou para o infeliz despachante a culpa que não era dele.
Zezinho foi despedido da loteria. Passou dias e noites a fio pensando na vida. Nem o primeiro salário foi pago. E mais uma vez Zezinho passou dias difíceis.
O pai, traficante da pesada, foi preso numa manhã de primavera. Era uma linda quarta-feira, sol brilhante, céu azul anil.
Zezinho ainda se lembra da triste cena. A mãe, derramando-se em lágrimas, e um irmão mais novo tentando consolar a mãe.
Isso faz dois anos. A partir de então Zezinho, felizmente, pensou haver se encaminhado na vida.
Aos trinta anos Zé, já homem formado, montou um pequeno negócio. Era uma mercearia de fundo de quintal. Uma lojinha onde se vendia de tudo um pouco. Mas a maioria dos fregueses não acertava na hora. E ficava no fiado. E este fiado nunca acontecia.
A mercearia foi por água abaixo. Aconteceu durante uma enchente que alagou todo o bairro de periferia. Zezinho acordou com tudo boiando. Inclusive a cama tosca onde dormia.
Aos quarenta anos, ainda endividado, devendo mundos e fundos, Zezinho mais uma vez resolveu mudar de ramo.
Abriu uma padaria. Como não sabia nada do oficio empregou um padeiro recomendado por um vizinho.
Acontece que o tal padeiro não tinha o costume de acordar cedo. E mais uma vez o negócio foi à deriva.
Zezinho não sabia mais o que fazer. Todas as tentativas de se dar bem na vida resultaram em nada. Ainda bem que não tinha se casado. Pela experiência anterior, do pai maltratando a mãe, chegando à casa trôpego, Zezinho pensou bem antes de dar este importante passo.
Aos cinquenta anos, considerado quase idoso, suas feições anunciavam mais idade que ele tinha, Zezinho aposentou-se por invalidez. Foi graças a um atestado falso que conseguiu tal beneficio. Mas, tempos depois, foi-lhe cortada a aposentadoria.
Zezinho mais uma vez passou tempos difíceis. Foi despejado do pequeno apartamento onde morava. Por falta de pagar o aluguel Zezinho se viu no olho da rua.
Foi quando o encontrei dormindo debaixo de um viaduto. Chovera na noite anterior. Zezinho acordou todo molhado.
Ofereci-lhe meus préstimos. E ele recusou não sem antes agradecer-me a generosidade. Com lágrimas nos olhos agradeceu penhoradamente.
Tempos depois soube notícias do pobre Zé Pitimba. Ele hoje mora de favor num lar de idosos desamparados. Vive só. Entregue as suas lembranças de quando era feliz. Uma felicidade de mentira.