Já antes acreditava em nascer de novo.
Não por comungar a doutrina espirita. E sim por entender que nesta vida, tão curta, a gente nasce, aprende a caminhar pelas próprias pernas, leva tombos, tornamo-nos adultos, incute em nós a responsabilidade, deixamos a mesma responsabilidade para aqueles que nos sucedem, envelhecemos, adoecemos, e, a partir de aí nada mais nos resta a não ser esperar o fim.
Hoje conto com quase setenta anos. Ainda capaz de caminhar sozinho. Com a mente saudável. A mesma que acompanha este corpo rijo.
Mas o que me espera a partir de mais alguns anos?
Estarei como hoje? Forte, capaz de decidir o que vou fazer nesta manhã, nesta sexta-feira linda.
Nem sequer imagino o que o futuro me reserva. Aliás, é melhor que seja assim.
Hoje o sol brilha forte. Nem parece que o inverno teve seu começo. A temperatura se mostra agradável. Nem calor ao excesso. Nem frio ao exagero.
Renasço todos os dias. A cada manhã. A cada despontar de um novo dia.
Renasço ao ver o sol brilhar. A chuva cair. O inverno chegar.
Renasço ao ver a esperança brotar dentro de mim sempre que acordo bem cedo pelas manhãs. A cada sorriso de uma criança. A cada abraço apertado. A cada bom dia recebido.
Renasço todos os dias ao ver a vida escorrer por entre os dedos. Bem sei que estou envelhecendo. Mas nem sinto o tempo passar.
Renasço ao ver os pássaros cantarem. A criança sorrir. Mesmo que a criança que morava dentro de mim se foi ao longe.
Renasço sempre ao despontar de um novo dia. Daí a felicidade que emerge sempre dentro de mim.
Renasço quando, ao cair das tardes, chego a casa, depois de um dia estafante, hão de concordar comigo que a medicina se tornou uma profissão desgastante, e passo horas a brincar com meus netos. Como é bom voltar a ser criança. Mesmo quando a idade não condiz com a que contamos nesta etapa de nossa vida.
Renasço sempre, a cada dia que passa, quando me deito. Amo o clarume do dia. Não me apraz a escuridão da noite. Prefiro a luz à negritude.
Renasço quando enxergo a carinha boa de um dos meus netos. Através deles me rejuvenesço.
Ontem chegou a minha casa meu terceiro neto. O Gael, com suas traquinagens, começando a caminhar, me olhava assustado, temendo cair.
Cuidei dos seus passinhos trôpegos. E ele me olhava de rabo de olho. De vez em quando ele caia. Mas logo se levantava.
E eu, olhando enternecido seus passinhos, renascia de novo. Aos meus poucos anos. Quando ainda criança. Aprendendo a engatinhar.