Sem eira nem beira

Aquele homem solitário, sem família, sem amigos, vagava a esmo pelas estradas.

Um dia, quando corria sem lugar definido, deparei-me com aquele vulto estranho, trazendo uma mochila às costas, caminhando lentamente pela estrada.

Era ainda cedo. De um domingo. Tinha a pretensão de correr mais ou menos trinta quilômetros. Uma distância considerável para quem tem a minha idade. Beirava os sessenta e cinco anos.

Quando me cruzei com aquele senhor, por certo era um andarilho, sem deixar de correr buli com ele: “São Joao Del Rey fica longe”?

Ele, esboçando um leve sorriso na face respondeu-me educadamente: “mais ou menos cinquenta sessenta quilômetros. Logo você vai estar lá”. Mal sabia ele que a minha intenção era correr pouco mais de vinte quilômetros. Se tanto.

Antes de nos despedirmos mais uma vez a ele indaguei: “de onde o senhor vem”? “Estou vindo de Juiz de Fora. Hoje faz um mês inteiro de caminhada. Não tenho destino certo. Vou até onde a estrada me leva. Hoje estou aqui. Amanhã acolá. Não tenho compromisso. Não tenho pressa. Por isso sou feliz”.

Deixei aquele senhor pensando na vida. Se aquele modo de vida leva à felicidade por que não continuar a minha corrida da mesma forma que ele? Fosse andando lento. Ou trotando rápido. Talvez não ter pressa seja em verdade a receita para ser feliz.

Anos depois, nesta azáfama que tem sido a minha vida, não consigo domesticar a ansiedade. Ela me toma pelos braços. Durmo pouco. Acordo em plena madrugada. Penso nos compromissos que me esperam no dia seguinte. Nos problemas que tenho de resolver. Nas contas que me atormentam. Nas idas e vindas que minha profissão me intima a ir e vir.

Ah!, se eu pudesse viver como aquele andarilho! Levando apenas na bagagem a esperança de caminhar a algum lugar indefinido. Sem pouso certo. Sem lenço ou documento. Dormindo ao relento. Sem se preocupar com nada mais do que ser feliz.

No dia quando me cruzei com aquele andarilho a partir de então pensei em mudar de vida. No entanto, assim que cheguei ao meu destino, no dia seguinte tudo me convocava a ser igual.

A segunda-feira chegou com a mesma saraivada de problemas. As mesmas contas a pagar. O mesmo ir e vir apressado. A mesmíssima ansiedade me cavoucava a intimidade.

Como seria bom viver como um andarilho. Apenas de mochila às costas. Na intenção de desvendar os segredos do mundo.

Ele não se preocupa onde vai passar a noite. Apenas se contenta em ter as estrelas por testemunha. Nem ao menos aceita carona. O seu lema é pé na estrada. Olhos adiante. Talvez o que o mantenha vivo é a certeza do nada certo. O incerto é o seu mote. A estrada a sua princesa consorte.

Já pensei em deixar tudo de lado e cair na estrada. Já hoje, com a idade avançando, tenho medo de não suportar a solidão das noites. A ausência da família. A indefinição do nada.

Beirando os setenta anos, antes que parta a outro mundo, o que será de mim caso decida me tornar um andarilho. Teria forças para suportar as longas caminhadas? Ou me sentiria em verdade feliz agindo assim.

Quando me encontrei com aquele andarilho, naquele domingo longínquo, confesso que seus modos vivendis me impressionou.

Já hoje nem tanto. Sou feliz do jeito que sou. Afinal a vida me presenteou com duas pernas fortes. Com três netos lindos. Para que mudar de vida se tudo corre bem. Não tenho a pretensão de amealhar fortunas. Este tempo já passou.

Antes, quando era jovem, pensando abraçar o mundo com as pernas, talvez fosse feliz sendo um andarilho. Sem eira nem beira. Sem destino certo. Sem lenço nem documento.

Agora, na aurora da minha vida, deixando pra trás a minha infância perdida, talvez seja melhor deixar a estrada. E por ela caminhar devagar. Deixando rastros do que se foi. Para não mais voltar. Quem sabe algum dia, somente o futuro dirá, quando me cruzar com outro andarilho, pare um pouquinho e diga pra ele: “seja feliz como eu sou. Pois estou contente assim como sou. Sem eira nem beira jamais penso ser”. Pois não se vive outra vez…

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