Agora são seis e meia da manhã. O sol brilha forte. A temperatura se mostra amena. Logo mais deve esquentar. Nem sinal de chuva no ar. Parece que ela se despediu. Para noutro dia voltar.
Ao acordar, a hora de sempre, antes de saltar da cama liguei a televisão. As notícias eram as de sempre: crise, desemprego, filas enormes se formavam no centro de São Paulo em busca de uma colocação no mercado. Aqui em Minas mais uma vez pessoas apatetadas eram acordadas com as sirenes ligadas, num sinal de alerta, num aviso que outras barragens poderiam se romper. E elas, sem terem para onde ir, levantavam-se da cama assustadas, mercês de outra tragédia que ceifou vidas, noutra cidade próxima, em tempos recentes.
Tão somente notícias ruins entulhavam a tela da televisão.
O país atravessa maus momentos. Por mais que tentem por freio na corrupção a história se repete: políticos são presos. Pouco tempo depois ganham a liberdade. Parece que tudo aquilo nada mais é do que uma mostra que o governo atual deseja mostrar mudanças. Ledo engano nosso. A coisa vai de mal a pior.
Ao deitar da noite tive de ir ao banco. Naquela linda praça, que daqui se avista, na calçada ambulantes tentavam vender algum produto. Jovens, de boa aparência, ofereciam canetas, balas, como a única maneira de ganharem algum dinheiro. Percebi, naqueles olhares tristes, desesperançosos, o grito alarmante do desespero.
Assim tenho visto o meu país. Sem rumo, sem prumo, à deriva. Quem nos governa bate cabeça. Parece, ao que tudo indica, mais uma vez meu voto foi mais um desacerto.
É triste constatar tanta coisa ruim nos tempos atuais. É duro perceber, a exemplo de um país vizinho, como a gente caminha a passos claudicantes. Torna-se difícil entender a razão de tudo isso. Por mais que tente não consigo enxergar a luz ao fim do túnel.
A saúde está cada vez mais enferma. Pela minha vasta experiência na saúde pública percebo que tudo vai mal. Não existem perspectivas de dias melhores. Quem mais sofre são os carentes. Os dependentes do sistema único de saúde mendigam um simples exames. E quando conseguem a doença já progrediu tanto que não mais é possível ser curada. As cirurgias eletivas são adiada sine die. As filas são enormes. Quem espera quase sempre se cansa.
É triste constatar em que ponto chegamos. O transporte coletivo, sobretudo nas grandes cidades, cada vez mais testa a paciência dos usuários. Quem sobrevive do salário mínimo é em verdade um herói. E ainda dizem que irão fazer a reforma da previdência. Quem vai ser beneficiado? Em verdade seria de fato quem mais precisa?
Torna-se triste constatar a que ponto chegamos. Aposentados fazendo bico para complementar o insalubre rendimento. Jovens tentando ludibriar a fome vendendo quinquilharias. Mais e mais pedintes dormindo ao relento. Comércio em crise. Antes de completar o meio do mês o dinheiro já acabou faz tempo.
É triste constatar a situação aflitiva por que passa o país. A violência continua sem freios. Massacres, tragédias, envolvendo menores, acontecem quando menos se espera.
Não tenho como fechar os olhos. Basta passar alguns momentos pela internet que somos notificados de tantos assaltos, tantas mortes provocadas por motivos banais, tanta violência contra a pessoa humana. Que se desumaniza cada vez mais.
É triste constatar o quanto as pessoas vivem em sobressalto. Quantos medicamentos são prescritos contra a depressão, a ansiedade, os distúrbios mentais, são receitados nas unidades de saúde pública. Hoje são maioria entre os pacientes que me procuram.
Cada vez mais observo, na minha lida diária, o quanto a infelicidade domina o cenário lindo de nosso país continental. Tudo isso graças ao desemprego, as frustações mais e mais prevalentes, ao descaso das autoridades, a violência desmedida, aos pais de família que não conseguem viver em paz.
É triste constatar tudo isso. Torna-se impossível prever quando tudo vai mudar.
Quem sabe um dia, que eu possa testemunhar, meus netos viverão num país bem melhor. Tomara que este dia não tarde tanto. Mas eu me pergunto: quando será?