Vamos entender as mulheres…

Desde menino, pezinhos descalços pisando no barro depois da chuvarada que alagou seu curral inteirinho.
Filipinho, irmão mais novinho. Geminho que nasceu ligado ao pescoço do outro irmão de mesmo nome. Se não sabem filhos que nascem em dois. Podem ser mais. Coitadinha da mãe.
Pior o pai, que tem de triplicar ou mais as horas de trabalho. Trocar fraldas e ouvir choro a noite inteira. Pois a pobre mãe parteira teve de sair em disparada pela estrada enluarada pra tirar uma criança encravada que não nascia nem a poder de reza brava.
Filipinho, desde quando naquela escolinha. Que era à sombra de uma velha amoreira.
A qual teve o triste destino de virar lenha pra fogueira. E aquela escolhinha hoje apenas existe nas lembranças dos alunos que ali estudaram. Hoje, anciãos que se tornaram. Ao passarem perto daquela velha escola dela só restam ruínas escombro se tornou.
Bom aluno, sempre com notas boas. O pequeno Filipe acalentava um sonho.
Mas como poderia vê-lo concreto. Um garotinho nascido na roça. Filho mais novo de pais roceiros. Analfabetos por inteiros. Sem condições nenhuma de mandá-lo e seu irmão pra cidade. Aquele menino dotado de uma inteligência e capacidade laboral enorme.
Sempre em destaque na escola como primeiro da turma. Tido pelos colegas amigo de verdade. Solícito por inteiro não pela metade.
Ao concluir o segundo degrau naquela escolinha rural. Filipe perseverava em seu sonho de se tornar médico. Já antevia inclusive receber o diploma. Numa festa simplesinha num ginásio qualquer da capital. Tendo sua família unida ao seu lado.
Esse sonho se fez real. Graças àobstinação do jovem doutor. Que mesmo caído se levantava.
Sempre dobrado aos grossos compêndios de medicina. Varava noites insones estudando sempre.
Aos vinte e seis se diplomou com as melhores notas da turma numa faculdade de ótimo conceito entre as congêneres.
Mas ele queria ir mais longe.
Desde antes de pensar em ser médico já se via abrindo crânios.
Quando sua amada mãezinha matava galinha na roça. Com que dificuldades. Ele mesmo quem corria atrás das penosas. Encantoava as mais gordinha das caipiras na cerca de bambu do galinheiro.
Uma vez morta e sapecada, pronta a ir à panela. Como a cabeça não fazia parte da dieta.
Filipinho se apoderava dela. Abria à luz de velas já que era noite. Estudava os miolos da galinha usando uma lupa de aumento.
Era um jovem neurologista, neurocirurgião em formação.
Era isso que ele queria. Médico estudioso do sistema nervoso.
Por que não?
Foram seis longos anos de especialização. Dois de cirurgia geral mais três da sua especialidade.
Vontade demonstrada e final bem sucedido.
Aos trinta e cinco se viu neurocirurgião.
Ainda solteiro, casado apenas com seus estudos.
Doutor Filipe não tinha sorte com mulheres.
Algumas namoridas passaram por sua vida.
Pensou ser Hortênsia a mulher que lhe cairia do céu.
Mas aquela megera obesa. Quando feliz pensava que ia dar certo.
No rala e rola, ela mais rolava na cama que ralava com ele.
Com a beata Dulce mais uma gorda decepção.
Até que ela, de começo. Não era tão gorda assim.
Mas de tanto se empanturrar de chocolate se tornou chocólatra.
E em todas as portas que tentava passar entalava.
Outras mulheres desfilaram por sua vida.
Não irei citar todas pra não encompridar muito meu escrito.
Até que um dia Filipe encontrou a que pensava ser a mulher com quem iria repartir não só a cama como as contas que já lhe atazanavam a vida.
Ele sonhava de olhos abertos com uma como aquelazinha.
O nome dela bem que poderia ser Amélia. No entanto ela se chamava Márcia.
Foi uma paixão a primeira relada de mãos.
Márcia não era apenas bonita de corpo. De boca, de seios, de tudo.
Era um mar morto não tanto salgado como esse mar de nome de morto.
Mortal na fala. Amena no trato. Fidalga não apenas pros amigos como pros desconhecidos.
Era tudo que ele queria. Nos entretantos pra ela? Quem iria saber se nem a conheciam?
Esse douto doutor Filipe se apaixonou por ela.
Durante as craniotomias, ao ver os cérebros desnudos. Tentando retirar tumores dentro dele.
Dava aos hemisférios cerebrais. Ao direito o nome de sua Márcia. Ao esquerdo repetia o mesmo nome.
A bela mulher, quando marcava encontro com ela.
Desesperava-se não somente com o atraso como o não comparecimento.
Era bolo em cima doutro.
Pensando que a faria feliz, passou numa loja de lingerie. Escolheu uma linda, miudinha calcinha pretinha e um sutiã da mesma cor.
Pediu pra vendedora embrulhar com carinho e não embrulhá-lo muito, pois estava com pressa.
Aquele presente parece que sua amada não se interessou por ele.
Até agora ele mofa no sofá da sala do seu apartamento.
Doutor neurocirurgião estava cansado da falta de interesse da bela Márcia por ele.
Amor deve ser igual bumerangue. Uma vez jogado volta à mão do remetente.
Não era bem o caso do amor que Filipe sentia por ela e ela não por ele.
Esse doutor, bom entendedor de doenças da sua especialidade.
Mais e mais desentendido da cabeça das mulheres.
Quem as entende explica pra mim.
Teve uma ideia gelatinosa.
Quando, em menino, abria a cabeça das galinhas e encontrava dentro delas nada de interessante.
Sem conseguir entender o que havia na linda cabeça de sua amada Márcia.
Depois de anestesiá-la no centro cirúrgico do hospital onde trabalhava.
Ao abrir o crânio dela, de retirar a calota craniana da operada.
Assombrou-se em nada encontrar.
Naquela noite ele não dormiu.
Nem eu.
Vamos entender as mulheres…

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