Me aquieto ou tento voar de novo?

Não deixo de dar asas a minha fértil imaginação.
Ah! Não fosse a escrita… Não sei o que seria de mim.
Talvez um médico desiludido com a profissão.
Arrependido por ter-se enveredado por esse caminho de tamanha dificuldade.
Pena ser tarde pra mudar meu rumo.
De tentar impor novo ritmo às minhas passadas trôpegas.
Por vezes me indago: “aos setenta e seis, prestes a assoprar mais uma velinha no meu bolo. Já não as assopro mais com medo de pôr fogo na toalha da mesa. Pondo em risco a saúde dos convidados. Seria de bom tom, aconselhável mudar de vida”?
Arriscar-me a perder minha família?
Passar a ser execrado por aqueles que inda amo tanto.
Meus dois filhos passarem perto de mim e fingirem não me reconhecer?
Meus amados netinhos não mais me chamarem: “vovô, venha brincar com a gente. Paga um sorvete vozinho querido. Hoje faz muito calor”.
Mudando minha rota arrisco-me a ser banido da amizade da minha esposa. Que inda a considero tanto. Ela foi e inda é muito importante pra mim. Sou adversário ferrenho dos números. Tenho por eles e as contas verdadeira, inconteste ojeriza. Deixamos de ser como éramos antes marido e mulher. Agora mudei de morada, não pensem erroneamente que preciso de nova namorada. Moro noutra rua, noutro prédio. Espero não deixar de morar, como amigo, no coração dela. À minha ex esposa (ex denota já era, expressão feia e fora de hora), devo muito. Não apenas dinheiro vivo. Não estou morto ainda. Vivo pensando na nossa família. Que de nossa união nasceu há muitos anos atrás.
Não me saem dos pensamentos meus três netinhos queridos.
Gael, meu parceiro no tênis, me vence. Sempre apostamos. Quem vence leva cinquenta reais. Ele faz questão de me pagar e me cobra os cinquentinhas dele se perco, sempre.
Theo, nome que dei aquele lindo potrinho. Que hoje se tornou um belo cavalo. Infelizmente perdeu um olho. Mas esse acidente em nada impediu de amar o Theo neto mais velho.
Assim como o não menos amado Dom.
O qual vi, num dia não tão antigo.
Lendo com seus olhinhos ativos meu livro O Canto das Cigarras.
Quem sabe, Deus e seus pais permitam. Com meu aval de avô. Donzinho querido se torne, mais tarde, um escritor.
De um casamento falido pode, e desejo muito. se transforme numa grande e bela amizade.
Jamais irei, um dia, quando me divorciar finalmente.
Assinar os papéis do divórcio da minha família. Que nunca deixarei de amar.
Bárbara, minha pequena jornalista. Em verdade, formada em jornalismo nunca de fato o foi. Hoje ainda escreve, e bem. Poetisa que um dia foi no seu “Amarguras’. Que tenho aqui às minhas costas doloridas. Não pense que, deixando sua amada mãe sem minha companhia. Deixei de querê-la muito bem.
Stenio, meu filho varão. Meu não menos amado filho, advogado cônscio e muito ético.
Que tem pelo tênis a mesma paixão de seu avô, meu pai.
Que pena sinto não poder jogar esse esporte pra mim dos mais difíceis.
Hoje não me canso de assistir a partidas de mais de quatro horas sem desviar minha atenção das quadras.
Antes, nas mesmas quadras de terra batida do LTC. Disputava aguerridas partidas em dupla tendo como parceiro meu pai.
Seria pra mim um prazer inenarrável ter você, meu filho, do outro lado.
Jogando ao lado do seu filho Gael. Contra eu e meu pai, Paulo José de Abreu.
Quem sabe um dia, espero tardar muito.
Disputarmos uma partida no céu.
Podem pensar ser uma sandice, na idade em que me acho.
Não me chamem de velho. Gagá, então se querem me insultar me injuriem nomeando-me assim.
Se desejam me encomiar, por favor. Digam, na minha cara, olhando nos meus olhos: “o senhor não parece tão velho assim”.
A muitos pode parecer um tanto, muito estranho.
Um ancião, na minha idade provecta. Deixar de morar junto e partir pra morar soltinho noutra freguesia.
Uma ignominiosa aberração da natureza.
Mas fiz isso mesmo. Uma loucura na minha cabeça dura e inda pensante.
Foi um ato de coragem ou insanidade?
Julguem vocês que me conhecem.
No meu julgar não sei.
Hoje, mais quebrado que arroz de quarta.
Não minhas pernas que inda as tenho rijas. Sim meu bolso mais furado que um buracão onde avestruz enfia a cabeça pra esconder seu ovão.
Tendo de passar fome, não pra emagrecer. Sim pra não gastar o que não tenho.
De passar chapéu à porta da igreja pra ver se uma alma caridosa joga umas moedinhas.
De me virar nos trinta e muitos pra pagar minhas intermináveis contas.
Não sei, nem quero saber o que o porvir vai advir.
Uma pessoa, compadecida da penúria em que me encontro.
A me ver um passarinho que escapou pela portinha da gaiola aberta.
Desatinado, quase não mais sabendo voar sozinho.
Esse meu amigo (não sei se da onça ou não).
Ontem me chamou às falas. Ele não era falastrão.
“Cuidado! Pensa na besteira que você fez. Separar na sua idade. Sem onde cair morto. Deixar o conforto e a segurança do seu lar, mesmo desestruturado. Querer voar com suas próprias asas se nem asas tem. Volta pra sua esposa. Passa nos cobres seu novo apartamento. Vende sua rocinha amada. Devolva o Jet Sky que comprou e inda nem pagou. Empresta seus cavalos. Dê de graça suas vaquinhas que ainda estão no fiado. Não confia nos bancos. Apenas aqueles onde pode assentar são confiáveis. Cria juízo velho menino!”
Naquela horinha indigesta pensei com meu umbigo.
Tiro meu boné, que não uso?
Deixo de usar tênis e passo a usar galocha, mesmo sem chuva?
Ando descalço se nem sei como fazer?
Volto pra gaiola, passo a comer alpiste. Deixo que fechem a portinha do alçapão onde entrei desavisado?
Me aquieto ou tento voar de novo?

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