Que bom me terem como insano

O que seria dos de mentes tidas como normais não fosse a louquice dos insanos?
Bendita insanidade…
Ela que faz o mundo girar ao revés.
Quem dá corda nos relógios.
Podem me questionar: relógios de hoje não têm corda. Concordam comigo?
Aquelas coisinhas que conspiram contra idades. Ah! Se eu pudesse tirar as pilhas ou baterias dos relógios. Fazer que os ponteiros deixassem a pressa e não fossem tão apressados. Fazer deles corredores como eu. Tartarugas mancas, preguiçosas, que demoram um tempão pra chegar devagar ao mar. Falo-ia sem pentear meus ralos cabelos brancos. Sem pensar seria melhor.
Um mundo sem os insanos seria mais ou menos assim.
Um mundo sem cores. Sem risadas sem causa na cara risonha daquelas pessoinhas diferentes.
Sem sabor de o sumo doce de jabuticabas madurinhas.
De um colorido esmaecido como o cinza de dias nebulosos.
Não se ouviriam bons dias quando, pelas ruas daqueles amalucados como eu. Que amam as madrugadas e pretendem trocá-las pelas noite que me metem muito medo.
Um mundo muito certinho seria o fim desse nosso mundo.
Os amalucados dão cores às cores do arco íris.
Tintam as asas feias, negras dos urubus. Em cores vivas maravilhosas como orquídeas em flor.
É gente como eu, como nós os doidos. Doidivanas sonhadores, tidos anormais, embora a anormalidade seja pra mim muito normal . Norma de vida mesmo.
O que seria de nossa vida sem espasmos de louquice?
Tem louco que se despe em plena rua. Fica nu em pelo.
De nada adianta a ele apelar que se vista de novo.
Ele, eu, quem se mete a ser doido. Felizes somos nós.
Que de repente, sem mais nem menos. Num carnaval passado. Dançado pelados num clube de pessoas bem comportadas. Cheirando lança perfume. Comendo as serpentinas que eram enfeites naquele salão feericamente iluminado. Numa tentativa inglória de dançar com a filha da dona Glória. Que glória seria tê-la conquistado. A gente era tido como tarado. E logo expulso por comportamento inadequado aos bons costumes de antão.
Bendita loucura…
Essa coisa pra mais que boa. Que nos faz diferentes da maioria das gentes.
Cidadãos comuns que pensam levar a locomotiva a frente dos vagões.
No entanto dos entretantos lugares comuns.
Somos nós os insanos que passamos os bois e a boiada inteira a frente do carro de boi.
Damos marcha a ré quando devíamos engatar a primeira marcha.
E o carro desgovernado ao invés de subir a ladeira despenca pela ribanceira.
Afundando num mar de águas rasas ficando submerso num banco de areia.
Ah! Não fôssemos nós os doidos. Não existiriam os Arianos Suassunas, nascido no nordeste. Em João Pessoa na Paraíba. Os tidos insanos numa lista enorme na qual pretendo figurar.
Bendita louquice. Coisinha boazinha que me faz acordar bem cedinho.
Pra ficar aqui onde estou nessa hora temprana.
A escrevinhar tanto. A desovar como galinhas desovam ovos pelo fiofó.
Essas escrevinhancas que fazem de mim. Médico ainda. Especialista me dividindo em duas metades. Aliás, três ou mais.
Uma urologista. Subindo um degrau da escada essa que me consome nessa hora a de escritor.
Não pode faltar minha metade. Essa que me faz perder o sono de ser sonhador.
Sonhar com um mundo onde pessoas cultuem uma boa leitura.
Que não desprezem quem saiba escrever e bem.
Aqueles que pensam que insanos sejam de verdade não doidos.
Sim seres pensantes que pensam mudar esse nosso mundo em menos imundo. Como infelizmente temos visto.
Dentro da minha louquice me sinto no melhor momento do meu longo viver.
Tirei-me a coleira que me prendia dentro de uma gaiola.
Desvencilhei-me dos grilhões que me atavam os tornozelos.
Soltei as amarras que me amarravam os punhos.
Agora, cônscio da minha insanidade.
Liberto pretendo dar asas a minha total, incontida libertinagem.
E sair voando, como urubus, em seus vôos plácidos pelos ares aproveitando as correntes de ar. Sem carecer ligar motores. Impulsionados apenas pelo seu prazer. Como o meu de escrever.
De levitar nas alturas olhando aqui em baixo nossa terra.
Que paz isso nos trás.
Aos meus leitores. E uns parcos admiradores.
De mim como inda médico. Da minha outra parte esse doutor, sem titulação de doutor.
Que, como escritor após deixar a coerência de lado.
Como bem me sinto voando solitário pelos céus da escrita.
Se me tiverem como insano pra mim. Longe de ser um insulto.
Agradeço-lhes de coração.
E não lhes peco perdão nem vocês a mim.
Bendita louquice.
Aos doidos, que dão cores a nossa vida.
O meu muito obrigado.
Como me dou bem dentro da minha insanidade.

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