A minha sempre acontece a mesma hora. Dia a cada dia, mês a outros até chegar dezembro quando se repete a ladainha.
Acordo de acordo com que meu ralo sono acaba me despertando, em plena madrugada, um cadinho antes das três, minutos antes das quatro e quatro e meia já estou aqui chegando.
Essa minha hora sagrada meu relógio sempre assinala quatro e cinquenta mais oito.
Agora, ao abrir o prédio onde tenho minha oficina de trabalho, onde ainda exercito um cadinho do médico que inda mora em mim. Não sei e nem desejo saber por quanto tempo mais. Afinal já são passados cinquenta e um anos de graduado. Agora soma-se mais um perfazendo cinquenta e dois. E aqui na minha amada Lavras conto quarenta e nove longos anos na medicina.
Ainda não aposentado embora muitos pensem que sim.
Após aqui chegar, dar de comer aos meus peixinhos aquarianos, procurar os dois malvadinhos, dantes cascudinhos e agora crescidinhos cascudões, exímios faxineiros dos vidros sempre limpinhos. Ligo meus três computadores: esse onde escrevo agora e a partir das oito atendo meus pacientes. Um notebook do meu lado direito onde o romance Ucrânia agora conta com mais de cem páginas. E o terceiro na ante sala onde fica minha excelente secretária, enfermeira, a fiel, linda, maravilhosa, mulher sem igual de nome Zaninha.
Chega de tanto lero lero que meus leitores querem ler minha crônica ao final.
Essa hora pra mim sagrada, aqui escrevendo mais um texto penso ser a melhor de cada dia.
Pro meu amigo Bendito, seu nome exato seria Benedito.
Acontece que, quando seu pai o levou ao cartório para fazer sua certidão de nascimento faltou luz naquele momento.
Fez-se uma escuridão naquela salinha acanhada naquela cidadezinha onde moravam tão poucos moradores que, quando um morria, faltava menos um na correria ao cemitério para, aquela gente curiosa ver de perto a cara do defunto. E um dizia ao outro, com sua carinha desavergonhada: “como era boa a pessoa o compadre. Bem me lembro de quando ele foi incriminado por ter afanado um franguinho caipira da horta da dona Tiana. O pobrezinho foi parar na cadeia e ali ficou um mês inteiro até o delegado descobrir que não foi ele e sim eu. Logo eu que tenho minha ficha criminal mais longa que um tal deputado reeleito ao undécimo mandato”.
Um segundo presente ao velório, ali presente somente para tomar um cafezinho quentinho bem acompanhado de dezenas de saborosos biscoitos de polvilho azedo. E não gostando daquele café, que em verdade era tão bom como laranja da ilha docinha em plena safra. Esse ingrato abriu o tampo do caixão, olhou na fuça feiosa da pessoa morta, deu-lhe uma cusparada na cara que voou perdigotos pra toda banda dos bandidos que ali velavam o morto.
Felizmente, pra ele, o Bendito, que não se chamou Benedito por erro do tabelião cegueta que não enxergava a um palmo do seu narigão. E, na distração daquela hora, sem sequer ver quase nada já que a salinha estava às escuras. Ao revés de botar Benedito ficou escrito Bendito.
Até tenho dito que Bendito não era uma má pessoa. Era mais que um milhão de pior.
Safado, caloteiro, dizia-se benzedor, arrancador de tumor que a pessoinha nem tinha.
Ainda, não fossem apenas essas safadezas, Bendito inda era agiota. Afanava dinheiro dos veinhos assim que elezinhos sacavam seu dinheirinho nos caixas eletrônicos, dizendo-se estar ali pra isso. Escafedia-se fedendo daquela casa bancária. Roubava galinhas gordinhas do seu vizinho veinho e fanho seu Arturzinho que era mais surdo que uma porta carunchada. Fingia-se de pedinte à porta de restaurantes granfinos a fim de comer sem pagar. E todas as sortes de falcatruas ele cometia.
Mas tudo que tem gosto de doce um dia amarga.
A vida de Bendito um dia amargou.
Era uma sexta feira treze de agosto. Se tem dia mais azarado digam pra mim qual é.
O tal, que nem era o tal, e sim um sujeito sem jeito amoral.
À porta de um restaurante chiquérrimo de sua cidade. Um dez estrelas se é que tem casa de comida tão estrelada assim.
Bendito, fingindo-se de faminto, que em verdade sempre foi faminto e pidão.
Assim que uma família de posse, pai, esposa linda, dois filhos, não sei se eram deles, nem se pareciam aos dois.
Aquela turminha desanimada deixou o restaurante elegante pela porta da frente e não dos fundos. Todos reclamando da comida, do cheiro nauseabundo, imundo da tal feijoada que deveria estar estragada.
Bendito, em andrajos nos seus trajes semi rotos, com uma vontade enorme de arrotar.
Achegou-se ao pai daquela família, de mãos estendidas, mais sujismundas que pau onde galinhas diarréicas tentam dormir empoleiradas e não conseguem devido à cagança desvairada.
E, educadamente a ele pediu, de joelhos fincados no sujo passeio sem nenhum asseio: “por favor, lhe suplico. Vi, com meus dois olhinhos que ocês deixaram quase toda a feijoada em cima da mesa. Ela não tava boa não? Estou com uma baita fome. Posso entrar no restaurante, assentar- me aquela mesa e comer o resto da feijoada que inda sobra nos pratos e nas travessas?”
O veio pai daquela família de gente não tão velha fez que sim com a cabeçona sem dizer uma só palavra, sem arrotar, flatular e qualquer coisa mais.
Bendito entrou aflito e comeu todo o resto da feijoada que sobrou por sobre a mesa.
Não sobrou nem um grãozinho de feijão preto nem uma amostrinha de paio ou linguiça com cheiro de porco peidorreiro.
Não carece dizer que o infeliz Bendito, seria o Benedito? Passou da banda ruim com aquela feijoada estragada mais podre que tomate podre jogado no lixo.
Aquela, e outras noites inteirinhas ele passou assentado no vaso da privada. Se contorcendo de dor de barriga.
Foi ontem que estive com ele.
Bendito ismagreceu (ismagrecer tá certo viram seus viados?), e bem que precisava; uns bons dez quilinhos.
Sabia da sua fama de canastrão, não bobão e sim veiaco, agiota, idiota nada tinha.
E ele, igual sofrer a dor de um parto, as dores de barriga que estava sentindo eram tão fortes que seus gritinhos eram ouvidos à distância.
Pra mim já deixei escrito, num parágrafo acima, que minhas horas sagradas são essas que passo aqui escrevendo antes de atender meus pacientes.
Já as do Bendito, depois do piriri que o vi, assentado à privada, nessas horas indigestas que todos nós podemos passar.
Pra ele a melhor hora, sagrada ou não. Foi e tem sido aquela que esvaziava seu intestino soltando seus excrementos fedorentos na latrina,
Azar maior o dele pois, por cima da tampa da privada morava um vaso enorme de cactos espinhentos.