Não quero esse mundo só pra mim

Agora são quatro e cinquenta e nove da manhã, dessa segunda feira vinte e quatro de agosto.
Daqui da janela do meu sétimo andar vejo a cidade despertar.
Luzes, alguns carros apressados em movimento, no céu a escuridão me faz pensar em noites.
Não pairam dúvidas no ar, que noites estreladas, céu escuro, temperatura amena, num ambiente rurícola, sozinho, olhando pro firmamento, na varanda de uma casa beira lago como a minha, contando as estrelas, pegando com mãos em concha vagalumes que por ali piscam suas luzinhas num apaga acende intermitente. Pra que, lhes pergunto, perder nosso tempo, nós, de mais idade, que nem sabemos se iremos acordar vivos no dia de amanhã. Passar oito, sete, seis longas horas dormindo? Passar seguidas horas de olhos fechados, tendo ou não do nosso lado uma pessoinha de nossa idade a ressonar como um gato persa ronronando. Pra que perder tempo a dormir tanto?
Pra mim bastam algumas parcas horas de sono pesado. Deito, fecho meus olhos, depois de ler um bom livro que me despertou interesse, melhor pra mim que ler é escrever como agora faço. Não antes das nove da noite meus olhos se fecham, deixo debaixo da minha cabeça pensante apenas um travesseiro macio. Desfaço-me do segundo usado na minha leitura que não prescinde de um bom par de óculos. E abro de novo os olhos antes que a noite se faça dia.
Essa é minha rotina costumeira desde quando tomei gosto pela escrita no dia exato que perdi meu pai.
Agora, céu ainda escuro. Se vejo estrelas penso que elas não me enxergam. A presença da lua ainda não se manifesta da minha janela do corredor. Que saberia me dizer se ela ainda faz amor e as pazes com o quentume do sol dispensando o cobertor pois, no firmamento está fazendo um certo frio.
De verdade podem crer no que digo: tenho medo das noites. Assim como o clarume das madrugadas me faz sentir vivo.
Por vezes muitas tenho vontade de dar um abraço apertado nesse nosso mundão que nos rodeia.
Não tanto como um mata leão que pode o mundo sufocar.
Um abracinho de leve, uma carícia um chamego.
Ao derredor desse nosso mundo tão díspare, onde as temperaturas oscilam de mais de vinte graus negativos a quentura de mais trinta como tem feito por aqui mesmo em pleno inverno antes mesmo da primavera.
Em criança, fazendo lambança no quintal da minha casa aqui pertinho. Casa essa que não existe mais a não ser nas minhas lembranças.
Ali tinha um pezinho de jabuticaba em que as frutinhas maduravam duas, três vezes ao ano.
Essa arvorezinha não tanto pequena nem grandona que não nos permitia chupar as jabuticabas sem subir no pé e só esticar os braços e colher com os dedos aquelas doces frutinhas pretinhas de uma doçura tão grande como um beijo doce de minha mãezinha. Só hoje entendi a razão de aquela jabuticabeira dar frutos maduros várias vezes durante um só ano.
O motivo era simplesinho.
Do meu quarto, era meu e do meu irmão Fred, vi, com meus olhos já enxergadores, minha mãezinha molhar o tronco da jabuticabeira com uma mangueira comprida que levava água fresquinha ao pé daquele pé de jabuticaba. Era essa a razão coberta de razão que a gente podia ter aquelas frutinhas doces mais de uma vez ao ano.
O tempo não nos perdoa e passa incontinente a nossa vontade.
Quando aqui cheguei, nessa madrugada agostenta eram quatro da manhã.
Agora são cinco e quarenta e dois.
Quando vi o mundo pela primeira vez, não aqui e em Boa Esperança, já passou pela estrada da minha vida bem vivida uma carreta lotada de milhões de dias e mais horas.
Antes, menino moleque ainda, nem pensava no que seria anos mais tarde.
Só pensava em brincadeirinhas inocentes, não tanto quanto quando via minha vizinha, aquela lourinha de pernocas lisinhas e meio sardentas e grossas. Naquelas horas me vinha por dentro um desejo insano. Mal entendido pois, a idéia de sexo inda não me passeava pelo meu entender tacanho infantil.
Estudar um cadinho mais era ordem de meu pai. Mas quem diz que eu, menino não tanto obediente cumpria o nosso acordo? Mais folgava, jogava bete, cricava bolinhas de gude, tapotava figurinhas de times de futebol, esporte que hoje não faz parte de meus melhores momentos.
Naqueles idos anos nem pensava, ou sonhava, dar corda a minha fértil imaginação, em ter o mundo entre meus abraços e enlaçá-lo entre meus dois braços.
Queria apenas crescer mais um cadiquinho. Pra não ficar do tamainho de um anãozinho de circo ou pintor de rodapé em pé.
Pena que as crianças, meninos e meninas, crescem.
Se pudesse iria manter os bebezinhos lindinhos como a maioria dos bebês em fraldas, cueiros e mantinhas para mantê-los aquecidos do mesmo tamainho que fui recém nascido.
Falo-ia de bom grado eternamente agradecido ao nosso paizinho do céu onde moram meus pais.
Agora a juventude se foi e com ela as saudades dos bons tempos de quando vestia meu uniforme verde branco daquele colégio que dele se diz que saímos do Gammon, mas ele não sai de dentro da gente.
Agora, nessa hora que já deixou muitas outras horas bem atrás. Nem me atrevo a contá-las tantas que são.
Eu, decrépito ancião, bem mais que sessentão , quase oitentão.
Inda médico especialista, numa lista enorme de congressos não mais presente, já que a Urologia inda me da alergia e ainda a amo como nos velhos anos. Essa difícil especialidade muda a cada dia. Das enormes lombotomias para sacar uma reles pedrinha encalhada no meio do caminho entre a saída dos rins à bexiga e ao final da linha ao lume do dia. Não mais carece de fazer no lombo dos pacientes um rasgo grande que a ele causa mais dor que a cólica renal propriamente dita.
Os robôs tomaram de assalto nossos afiados bisturis. As sondinhas fininhas são enfiadas canaizinhos adentro de nome ureteres e retiram as pedrinhas de dentro deles sem causar danos maiores.
A Urologia ainda mora dentro da metade de minha pessoa.
A outra metade é tomada pelo escritor.
Agora me contento e fico contente de não querer esse nosso mundo apenas meu.
Divido meu lado médico ainda praticando minha especialidade da forma que inda sei.
Ouvindo os queixumes dos pacientes atentamente sem dar meu diagnóstico atabalhoadamente.
Aprendi, nesses meus cinquenta e um anos de trabalho diuturno, a tratar não a doença que me trazem aqui a frente de onde estou. E sim o seu portador, aquele velhinho encolhidinho vergadinho em sua cadeira de rodas, o qual me chegou trazido pelos filhos com um PSA elevado, suspeitavam de um câncer de próstata avantajado, sem nenhuma possibilidade de ser curado. Devia eu indicar uma biópsia daquela glândula sob suspeita ou apenas aconselhar a família a nada fazer a não ser cuidar do seu velhinho com todo zelo já que ele vai morrer de outras causas que não aquele câncer de próstata que já se propagou à distância infinita sem nenhuma chance de cura.
Não desejo ficar com nosso mundo só pra mim. Pretendo dividi-lo com vocês.
Prometo ficar apenas com meu lado que inda me acompanha, a de médico que inda sou. Embora muitos pensem que não mais seja.
Meu outro lado escritor, espero que não o divida com outro qualquer embora existam muitos médicos escritores mundo afora. E seria um desaforo dizer que não.
Não quero esse mundo só pra mim.
Meus filhos, meus netinhos queridos, esse meu mundo, apesar de tão machucado, espezinhado, agredido tanto.
Recebam de minhas mãos e de outras mais sábias, um mundo melhor que esse onde vivemos.
Será esse o meu legado, de coração não enlutado. e sim um mundo menos imundo onde as pessoas possam viver com dignidade respirando um ar mais puro nas manhãs…

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