Inda me lembro, lembranças são levadas pelo vento.
De quando a ele pedi, ao grande escritor nascido na mesma cidade onde vi o mundo pela primeira vez. Não pessoalmente e sim pelo internet. Já que não tive a felicidade de conhecer o grande Rubem Alves olho no olho. A nossa prosa virtual se deu no sentido de que ele, personagem ilustre da nossa literatura, dissesse por escrito algumas bem traçadas linhas sobre aquele livro da minha lavra. Não sei qual deles foi.
O fato é que a resposta ao meu pedido, não pelo telefone, nem ao vivo e colorido em cores vivas ou acinzentadas.
Singelamente a resposta foi essa: “meu caro Paulo. Infelizmente não tenho tempo”.
Rubem Alves morreu. Agora o tempo escorre em meus muitos anos.
Lembranças me assediam. Horas, minutos, segundos se foram e eu ainda estou por aqui. Não sei e ainda bem que ignoro por quanto tempo mais.
Hoje, aos setenta e seis, o tempo não me sobra nem me falta.
Não tenho mais tempo de ficar ouvindo conversas que nada acrescem ao meu saber. Muito menos sendo testemunha de discussões acaloradas entre pessoas que se digladiam nas ruas. Eu passo em passadas rápidas e sigo em frente. Corro e subo o morro sem me curvar sobre mim mesmo.
Falta-me tempo para ficar na cama sobremodo numa manhã risonha e ensolarada como a de hoje cedo. Quando o sol brilha e o céu se tinge de azul clarinho. E a temperatura nos intima a um banho de piscina fria. Na intenção purinha e simplesinha de nos refrescarmos no calor que mais tarde vai fazer.
Escasseia pra mim o tempo de permanecer sem fazer nada. Embora tenha idade pra me aposentar de vez pra sempre. Aqui permaneço em meio expediente a praticar a minha especialidade urologia que ainda me fascina. Não irei fechar as portas da minha oficina de trabalho. Esse meu refúgio onde me isolo em todas as manhãs madrugadas. Nesse meu sétimo andar de onde posso passar os olhos pelas janelas abertas em parte do meu passado.
Não tenho mais tempo de dizer ou escrever que não tenho mais tempo. Esse meu tempo é precioso. Ele vale tanto ou mais que milhares de moedas de puro ouro. É nesse tempo que ainda me resta. Nessas minhas horas que aqui passo retratando o cotidiano. Pondo pra fora a inspiração que me consome. O mesmo tempo some. Desaparece das minhas vistas e vai embora.
Não tenho mais tanto tempo de vida. Já vivi o suficiente para contar a minha história aos meus netinhos. Ao Theo, ao Gael e ao Dom espero que o tempo pra eles seja magnânimo. Que não lhes falte nada no futuro que pra mim mais e mais escasseia. Que um dia eles três possam falar do seu avô palavras elogiosas e não censurem tanto meus repentes de insanidade.
Não tenho tanto tempo assim como gostaria. Não sei e nem quero saber o tempo que me resta para aqui viver. Desde que a saúde não me deixe. Que a inspiração não me faça deixar de suspirar. Aqui, nesse planeta tão lindo e tão agredido. Que eu possa ser uma voz dissonante aos que me contradigam. Que eu fale contra e não a favor das cenas de violência desmedida que assistimos ontem no desfecho de uma partida de futebol entre dois times mineiros.
Não tenho mais tanto tempo para olhar a beleza dos alvoreceres. As noites de lua cheia me trazem boas recordações dos meus tempos de menino na rocinha das minhas tias avós. Quando aquele molequinho que morava dentro de mim saía durante as noites escuras a caçar pirilampos. E os soltava da caixinha de fósforo na varanda avarandada daquela casinha tosca. E os via avoarem aos céus se transformando em estrelinhas de luzinhas piscantes.
Falta-me tempo para deixar escrito que não tenho tempo. As horas, formadoras de dias. Recheadas de minutos e seguida de segundos. São pródigas e cheias de bons e maus momentos. Esses que passo escrevendo são os melhores pra mim.
Um dia deixou escrito o grande Rubem Alves, ao me dizer por escrito que não tinha tempo pra fazer o meu prefácio de um dos meus livros. Eu diria a ele: “Rubem, pra mim não falta tempo. Faço da falta de tempo um motivo a mais para continuar escrevendo.”