Fomos esquecidos…

Coisas que magoam e me causam constrangimento.

Há tempos atrás.  Não me recordo qual dos meus livros foi. Novinho em páginas e ricamente encadernado.  Recém nascido de uma gráfica que chamo de maternidade. Pois pra mim editar um novo livro é como se fosse um filho que viesse ao mundo. Deixei-o à venda numa banca de jornais no centro da minha cidade.  E a cada dia ali passava para rever meu filho livro. Olhava e olhava novamente, no lugar onde ele estava sob os olhos dos passantes. Acontece, num outro dia, ao passar por aquela banca de jornais senti falta do meu livro. Ele não estava no mesmo lugar onde o havia deixado. Assaltou-me um sentimento de alegria. Será que porventura de uma ventura alguém o tivesse comprado? Assim perguntei ao dono da banca: “deixei um livro de minha autoria num lugar aqui no seu negócio. Agora meu livro não mais está no mesmo lugar. Será que ele foi vendido? Ou pior, afanado”?

O simpático jornaleiro pra mim olhou com olhos zombeteiros e assim me respondeu: “não meu senhor doutor escritor. Livros ninguém rouba. Não são objetos de predileção de larápios ou gatunos”.

Deixei aquele logradouro muito importunado. Dir-me-ia bastante chateado pelo dito verdadeiro do jornaleiro.

Não se roubam livros, que eu saiba ou conheça. Pelo menos aqui nesse país onde o costume de ler e escrever não faz parte da maior parte dos brasileiros.  Ainda não vi nenhum ladrão de livros pagar pena na cadeia.

Na minha rocinha amada. Onde estive inda pouco e agora de novo retornei a minha cidade.

Na companhia prazerosa dos meus dois cães Clo e Robson. Eles dois na frente e eu trotando logo atrás. Clo sempre do meu lado e Robson, o pretinho serelepe correndo à frente.

Naquela casa Amarelazul, agora vazia de pessoas e recheada de saudades. Entrei cômodo por cômodo. Fotografei a intimidade daquela morada feita, tijolos por tijolos. Telhas perfiladas no telhado. Admirando as janelas da casa do meu avô Rodartino. Aquele senhorzinho simpático do qual herdei o costume de andar a pé pelas ruas da minha Lavras amada. E, na sala daquela casa que hoje chora meus olhos viram uma pequena estante cheia de livros.

Era uma estante alta não o bastante para alcançá-la com meus dedos estirados.

Meus dois cães olhavam para mim sem saber o que estava fazendo. Mal sabiam eles que eu era um escritor doutor.

Retirei todos os exemplares daquela estante esquecida pelos antigos moradores.

Entre aqueles livros cinco da minha lavra. A Moça Alegre do Sorriso Triste era um deles.

Entristeci-me pelo infausto esquecimento não só dos meus livros como dos outros esquecidos.

Levei os cinco livros meus a minha casa beira lago. Agora eles estão na minha estante, no quarto onde fica o meu computador. E não serão esquecidos nunca mais.

Da pena. Dói-me o coração. Machuca-me a sensibilidade.  Maltrata-me os sentidos.

Livros não são objeto da cobiça de ladrões. Existem até uns pseudo letrados que dizem que ninguém mais compra livros.

Antes de voltar a minha casa beira lago, levando nos braços cinco da minha autoria.  Ouvi dos outros livros daquela estante uma súplica que me pareceu um pedido de socorro.

“Por favor, meu bom doutor escritor Paulo Rodarte. Fomos esquecidos aqui. Levem-nos também com o senhor. Sabemos que nós, livros, não somos artigos de primeira precisão. E seremos os últimos a serem esquecidos na casa de alguém que por ventura um dia se mudou”.

 

 

 

 

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