A gente nasce, cresce, atinge a idade da razão, mais tarde a perdemos, ficamos decrépitos, voltamos à fralda, o leito nos espera, e, daí em diante nada mais nos resta a não ser esperar que o fim chegue sem muito sofrimento.
Assim acontece a maioria das pessoas. Muitos perdem a vida antes da hora prevista. Em pleno verdor dos anos a morte chega. Triste fato, inconcebível relato de tantos quantos não tiveram, como eu, o prazer de chegar aos setenta com a mesma disposição de dantes. Talvez mais.
Já passei pela mocidade. Ultrapassei aquela idade a qual dizem ser a mais produtiva. Velho não me sinto. Embora minta quando digo que ainda vivo pensando no amanhã. Vivo o dia de agora. Mas não deixo de cultivar os bons momentos passados junto ao que me são caros. Ai que saudade dos meus pais…
Por mais que eu tente não consigo domar a ansiedade. O desejo insano de voltar ao passado. Nos verdes anos da minha mocidade.
Por mais que minha vontade dita não consigo acordar mais tarde que o costume. Acordo ao nascer do sol. Quando a madrugada ainda bate a minha janela.
É quando me sinto mais a vontade. Deixo meu apartamento quando as ruas ainda estão vazias. Um ou outro passante caminha pelas ruas. Reparto com eles a minha solidão.
Por mais que insista não consigo contrariar a minha rotina. Bem sei que ela é enfadonha. Mesmo sabendo que a vida seria insuportável não fossem as mudanças reluto em mudar-me. E enveredo-me pelo mesmo caminho. Podem dizer que ele se torna maçante. Mas não consigo agir de outra forma.
Por mais que insista, persista, não consigo driblar a minha rotina. Faço tudo sempre igual. Dia após dia.
Hoje, quase final de ano, dezenove de dezembro, recapitulando as minhas lembranças, desde quando criança, ainda me lembro de tantas coisas, que nem cabem nos meus pensamentos.
Por mais que pense em mudar o rumo de minha vida, perco o prumo, e retorno ao mesmo caminho, desde quando era menino.
Por mais que tente me enveredar pela paz e tranquilidade mais uma vez me assalta a ansiedade. E repito as mesmas coisas que sempre faço.
Quem sabe um dia, o mais tardar alguns anos mais, quando estiver acamado, desprovido do prazer de ainda estar vivo, consiga domesticar a sofreguidão que me consome.
Quando assim estiver, desprovido de sonhos e desejos, que me alijem de mim.
Não me façam sofrer atado a um leito de hospital.
Já tentei de tudo para mudar o meu eu. Nasci com o destino prefixado.
Sou sensível por natureza. Inconsolável sofredor.
Por mais que tenho tentado não me resta outra coisa. A não ser retratar tudo que se passa dentro de mim.
A cada manhã. A cada dia que nasce.