” Mió, pra nois, pobre, junta os pano”

A diferença entre ricos, abastados, pro meu cumpade Justino, abestado. De burro ele não tinha nada, nem o rabo, nem o relincho muito menos a teimosia de empacar e não querer subir o morro topetudo nos dias chuvosos e lamacentos de sua rocinha antes prejuizenta.
Justino dizia aos seus amigos com sua vozinha fanha: “se ocês pensa que sou pobre se enganam. Vivo montado na minha mulinha chamada Grana. A cada manhã acordo, tomo meu cafezinho bem acompanhado de meu galinho de estimação de nome Caviar, Beluga é seu segundo nome. Nado na minha piscina olímpica aquecida forrada com notas de cem euros tendo por companhia minha capivara adestrada chamada Foie Gras. Saio da minha fazenda, (que em verdade é uma rocinha naniquinha menorzinha que meio palmo de chão duro e infértil). Se voismecês têm voz não duvidem da minha riqueza maior. Não se trata da mansão enorme onde vivo. Que foi construída acima de poços de petróleo e uma jazida de diamantes lapidados. Nem do meu haras de cavalos puro sangue cujo preço sobe às alturas de um prédio de milhares de andares. Nem ao menos da minha piscina já explicada no parágrafo anterior e outras coisinhas mais. Sou investidor da bolsa de valores tido como um magnata colecionador de carros antiquíssimos. Amigo íntimo da falecida princesa Daiana morta em má companhia de um amigo meu. Minha ex amante bem antes de se casar com o cornudo rei Charles. Não ostento nem invento a riqueza que tenho. Tento viver e conviver simplesmente em trajes andrajosos. Embora no meu enorme guarda roupa só se vêem etiquetas caríssimas tipo Armani, Gucci, e outras de maior valia”.
Justino, entre tantos tantos era mais pobre, miserável, miserento que um padre vocionado fugido de um convento por ter sido descoberto em fragrante delito copulando, atrás de uma moita cheinha de carrapatinhos micuins. Com uma noviça não rebelde que amava dar pros monges.
Ele ficou solteiro, não ajuntado, inté os dezesseis anos incompletos pela metade.
Gabava-se de ser bom de cama. Não para dormir roncar, soltar flatus e sim para fazer o que sabia fazer melhor. Segundo sua língua linguaruda montar, não numa égua cupinzeira com a qual teve um causo de amor e a paixão terminou antes de começar.
Mas à voz corrente pessoas que o conheciam sabiam que Justino num era nada disso.
Sim um gabola, que quando pensava que uma lindona mulher a ele dava bola se equivocava e caía da égua metendo o focinho no chão poeirento.
O tal, que pensava ser o tal e nem sabia o que era isso. Analfabeto total, não somente funcional.
Justino, morando só com sua pessoa nada simpática. Dentuço, pinguço, um verdadeiro molusco aparentado a tal lula. Que, quando o L é maiúsculo se parece ao nosso presidente.
Cansado da solidão, nem madrugão era acordava tarde pra ficar mais tempo sem nada a fazer. De verdade não tinha aptidão pra nadica de nada. Nem nadar sabia o pobretão.
A casinha onde morava era, de tão sujinha que nem a porcada, quando ali entrava torcia o rabo em leque num dia ventoso e quente para refrescar o ambiente. Grunhia e dizia adeus aquela porcariada fedorenta.
Justino, que se dizia rico, abastado e pra mim bastante abestado. Mais pobrinho que pedinte falido. Não sabia e não queria aprender mais nada em sua vidinha insossa e desregrada.
Cozinhar pra que? Se como pouco e sobrevivo muito bem com minha barriga desbarrigada.
Lavar roupa pra que? Se nem banho tomo, nem aos sábados. Nos domingos então vou à missa mais sujo que pau onde dormem as galinhas.
Faxinar não é de meu costume. Vivo e muito bem na sujeira que me rodeia.
A vida de Justino era ao mesmo tempo sem graça. Não faltavam trapaças na vida que ele tinha. Arruaça era o que de melhor ele sabia aprontar. Uma verdadeira desgraça a vida que ele levava e nem se queixava disso; por não conhecer vida melhor.
Um dia, chuvoso, céu cinzento, setembro setembrando, quase a metade faltavam apenas alguns dias.
Justino, cansado dessa sua vida. Pensando inclusive em auto extermínio, passando uma cordinha fina em seu pescoço grosso e dependurar-se num galho mais alto de uma velha amoreira.
Acudiu-o a tempo um velho amigo que, por ventura de uma desventura sou eu.
Cortei a cordinha, de acordo com minha consciência. Pus um banquinho tosco ao pé da velha árvore. Amparei seu corpinho magricela antes que ele despencasse no chão molhado pela chuva que tem caído. E salvei Justino justamente quando ele mais precisava. Na horinha H.
Uma vez ele mais sossegado. De cócoras com a sua bunda assentada aquele banquinho usado no seu salvamento. Dei-lhe um conselho pensando ser-lhe de utilidade.
“Justino, por que você não se casa? Já passou da hora de deixar a solidão sozinha. Ela se acostuma vai ver. Todos nós nos acostumamos a viver em nossa própria companhia. Prosear com as paredes tem suas vantagens. Elas não revidam aos nossos tapas e nem nos dão beijos. Tenho uma conhecida, aqui pertinho, de nome Lucinda, que bem que gostaria de ajuntar os panos com os seus. Sei que essa zinha tem um dinheirinho guardado num porquinho cofrinho. E não são poucas modinhas não. Se quiser posso falar com ela e marcar um encontro entre vocês. Topa”?
Justino topou na hora, não seu dedão numa pedrona defronte a sua casinha.
Lucinda e Justino marcaram a data do ajuntamento pra de hoje a dez dias.
Fui intimado a ser o padrinho, desde que desse uma arrumada no chiqueiro da casinha do Justino onde eles iriam morar.
De acórdão com meu acordeom cumpri o prometido.
Esfreguei o chão imundo da casinha do Justino. Lavei a louça da cozinha.
Fiz uma faxina enorme no banheiro. Troquei a roupa de cama que nunca foi trocada onde moravam ratazanas mais gordas e bem nutridas que capivaras obesas.
E entreguei tudo em ótimas condições ao novo casal recém ajuntados.
Nos primeiros tempos tudo ia bem, não muito bem.
Eles se toleravam por alguns minguados anos.
Aos dez o que era doce amargou igualzinho fel.
Aos vinte, trintanos, Justino e sua não mais amada idolatrada esposa optaram pela separação.
Eles eram casados, de papéis passados e não ajuntados somente.
Foi nessa manhã de quinta feira que com o desinfeliz Justino estive nessa pracinha aqui pertinho.
Já sabedor da decisão deles dois se separarem pra depois divorciarem finalmente.
Havia procurado um advogado especialista em separação para oficializar o divórcio definitivo.
Sabendo as custas desse causo de amor que recém terminou. Que montava numa altura de um edifício como esse onde estou agora de nome Edificio das Clínicas. Onde militam muitos médicos, dentistas e outros mais profissionais da saúde.
Quando, em prosa com o Justino, a ele informei que para se divorciar da Lucinda iria ter de gastar bem mais que eles juntos tinham nas suas poupanças vazias.
De olhos atônitos, meio zarolhos tal lhe foi o susto.
De sua boquinha entreaberta, mostrando os poucos dentes que inda tinha isso: “oia meu amigo da onça. Não sabia nem sabiava que pra nois separa gastava tudisso. Casá, no cartório, nas igreja lotada de luto, é pra rico. Mió, pra nois pobre, junta os pano”.
De acordo com meu acordeom. Ou minha sanfona, cumo preferirem mió…

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