A vida é uma sucessão de saudades

Como definir vida?

Entendo-a como a propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte. Dizem ser ela associada à busca da felicidade. Embora muitos desfilam por ela não a encontrando.

E um rosário de infelicidade atormenta-nos vida inteira. Dessa maneira penso que quem vive assim não viveu.

Saudade. Palavra que deve ter a mesma raiz de outra símile – sensibilidade.

Sentimento que nos faz sofrer. A um simples farfalhar de asas de um beija flor que não encontra a flor. Ao vermos uma criança sem teto. E nada podermos fazer para atenuar-lhe o abandono.

Dizem ser sensibilidade peculiar aos poetas. Que sabem versejar sem saber o porquê. Que choram sem razão de ser. Que se despedem chorosos lacrimejantes. Os quais sentem tanto que se desdobram em pranto.

Sentir saudade não guarda relação direta com quem a sente. E nem tem explicação condizente. Pois saudade sentimos ao vermos nossa filha partir não para sempre. Pois sabemos que um dia ela volta. Quem sabe cercada de filhos. Nossos netinhos que nos fazem retomar a vida tal que qual éramos antes.

Dizer que a vida é uma sucessão de saudades não é falsidade.

Saudade sentimos, chorosos, lacrimejantes, ao vermos a vida finar quando nossos pais se vão. Para sempre. Já que eles não voltam. Como nossa filhota voltava do Rio de Janeiro. E lá ficava meses inteiros fazendo seus pais sentirem sua ausência.

Saudosos ficamos quando alguém. De nossa amizade mais chegada. A nós fazia uma desfeita. E a gente sentia no peito uma dor lancinante como se um punhal de lâminas afiadas ensartasse-nos profundamente no âmago.

A vida indubitavelmente se torna uma sucessão de saudades quando perdemos a noção de tempo. E ficamos a olhar de olhos baços, inexpressivos, como meu pai ficou refém da enfermidade de Alzheimer.

Temos saudades dos velhos tempos. Quando, meninos ainda, brincávamos de pés descalços naquela rua que daqui se avista pelos fundos. Aquela rua ainda existe. Só que não é mais a mesma dos mesmos tempos de outrora.

A vida indubitavelmente se tornou uma sucessão de saudades. Daquela meninazinha que foi a primeira namorada. Por onde ela anda? Se vive por certo ela nem se lembra de mim. Se morta irei encontrá-la em outra vida. Se é que ela existe de verdade e não fantasia minha.

Saudade de tudo e de todos. Passarei a vida sentindo.  Mugindo de saudade de alguém.

Não consigo identificar de quem sinto saudade. Já que a vida passa e a morte sobrevém.

Saudades me cavoucam por dentro. São tantas que nem sei.

Antes, criança ainda, não sabia o que significava saudade. Agora que os anos passaram bem sei.

Prestes a completar setenta e quatro as lembranças continuam a me atormentar. Aquela rua me olha lá do fundo. Acredito que mesmo sem olhos ela me enxerga. Como eu ainda vejo a mesma rua, calçada de pedras duras.  Ou até mesmo antes, de terra batida, quando eu, menino, soltava barquinhos de papel na enxurrada. Lucubrando, comigo mesmo, se aquele barquinho frágil chegaria ao mar.

A vida, no meu entender, sempre vai ser uma tormentosa sucessão de saudades e lembranças fugidias. Que não somente alimentam o meu viver como também me fazem sonhar.

Viver é um buscar continuamente a felicidade.

Se não a encontramos por que continuar a procura?

Melhor entendo. Nunca, jamais, deixarei de sonhar.

 

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