Pra mim não apoquenta

“Nem fede nem exala mau cheiro”.
Isso foi dito, num momento de pura tranquilidade pelo Zé Piqueno (Piqueno sim. Esse pequeno nome é meu e batizo como quiser).
Quem não conhece esse Zé, nada sabe quem de fato tem valor.
Já que aqui em nosso país tem-se o mau costume de se endeusar quem nada vale.
Exemplifico: valoriza-se mais a conta bancária que o caráter, a honestidade, a finesse no trato com as pessoas. Mesmo se elas forem tidas famosas. Gostosas como umazinhas que desfilam peladinhas no sambódromo nos carnavais que já me fizeram cheirar lança perfume. Amar usar máscaras negras ir sambando desajeitado pelos salões. Idolatrar neymares da vida nos esquecendo de dar valor as nossas professorinhas que nos ensinaram o babacd. Ao revés de valorizar coisas nossas sair ventilando no ventilador que o tal Trump deu trombadas no nosso presidente reeleito. E acabou de acolher o derrotado no derradeiro pleito. Que daqui fugiu como o demo da cruz credo.
Pra mim chega de dar bons dias a quem não acha que estamos atravessando dias bons.
Quem daqui se evade em vôos na escuridão. Em viagens não descobertas pelos radares da polícia federal. Sob a tutela da corruptela que aqui grassa como a desgraça das ervas daninhas que infestam os jardins.
Pro Zé Piqueno, a sua pequenez de anão circense. Que mede menos de metroemucado.
Como escrito dantes. Ele, recostado de costas na sua rede balouçante. Na varanda aconchegante da sua casa na roça. Inda lhe restava mil e duas tarefas a cumprir. Comprida era sua lida no campo.
Já tinha tirado duzentos litros de leite das suas vinte vaquinhas tatu com cobra peçonhenta.
Roçado à foice cega trinta tarefas de cinquenta varas.
Depois de remediar mil cercas de arame enferrujado e gasto.
De se coçar devido aos incontáveis micuins que lhe infernizavam a droga de seu saco murcho.
De tratar e bem sua porcada faminta e grunhenta.
Ainda tinha de dar conta de sua não amada ajuntada dona Mandona Obesa Mórbida.
Zé Piqueno se queixava amaramente de ter de aturar tamanho estropício peladona que. Quando rebolava na cama a pobre ringia e quebrava fazendo um som igual de foguete ao ir a lua.
Se aquilo podia chamar de vida Zé profundamente desejava viajar a outra vida.
Nesses dias atribulados, como tribos de indígenas pintadas pra guerra.
Nesses dias pós eleições. Não sendo a vitória de Lula previsível. Pros petistas sim, pros derrotados não.
A mídia não escreve outra coisa. Senão os senões cometidos pela campanha do filho do Bozo e da sua fuga pra Miami.
No meu entender obtuso ela deveria focar mais nas letras escorreitas como se escreve em Portugal. Não na nossa fala istrupiada. Que a mim mais parece piada de mau gosto.
Mas como boas crônicas, sobremodo longas não dão ibope. Só notícias ruins são lidas e aumentadas. Fakes então fazem sucesso danado.
Zé, Piquininho, quando a tarde fechava os olhos de sono dando lugar a noite.
Ele mesmo exausto como exaustor pegando fogo de tanto tentar afogar o calor.
Recostado na sua rede, assistindo às notícias nada alvissareiras veiculadas pela televisão.
Vendo, sem venda nos olhos. Bom enxergador que sempre foi.
Não tendo como se mudar pra Pasárgada. Não sendo chegado nem ao rei muito de menos à rainha.
Ao ver a fuga do derrotado rumo ao seu padrinho. Esse presidente topetudo que pensa, com razão mandar em todo mundo.
Não desligou a TV de teimosia. Notícias assim lhe davam azia.
Dele ouvi essa frase que me fez pensar e me apoquentar e muito.
“ Meu amigo doutor Paulo Rodarte de Abreu. Me desculpa, faltou o Expedito. A coisa tá feia aqui né? Se tá agora imagina o ano que vem… O povo que votou no home, que de vez em quando aparece de chapéu. Vai sofrê como muié de desempregado na fila do SUS à espera da consulta premente da sua filhinha muito doente. Já deixei um papel escrito: o último a deixar o navio deveria ser o comandante. Como nosso desgovernado barquinho de papel está descendo a enxurrada. O derradeiro a chispar da sua casa não deixa de apagar o lampião. Tá todo mundo preocupado com o destino do derrotado. Mas ele está nos Estados Unidos desunido e desiludido daqui de baixo. Tenho certeza que ele tem muita grana debaixo do topete do presidente dos EUA. Ele, e sua família famigerada, por acaso se preocupa com nóis pobretões? Eu e minhas vaquinhas achamos que não. Eu não me apoquento nem esquento a pioenta. Já rapei minha cabeça até o saco mais embaixo”
Num é que Zé Piqueno cresceu no meu entendimento?

Deixe uma resposta