Chico Desconsolo e a câmara dos edis

Desde tenra idade aquele menino esperto, responsável, sempre que via um banquinho nele subia para falar aos amiguinhos.

Chiquinho era a esperteza em pessoa. Que pessoinha boa era o tal menino.

Estudioso, cumpridor dos seus deveres, nunca faltava aula. Fosse no verão chuvisco ou seja no inverno mais rigoroso.

Aos menos de dez anos já houvera concluído o primeiro degrau de uma escada da qual não se via o final. Aos menos de dezoito já se preparava para o vestibular. No qual foi aprovado entre os primeiros no curso de direito.

Ele sempre estudou numa escola pública. Nascido de pais de classe baixa sempre ajudou a mãe nas tarefas do lar. Dedicado não apenas aos estudos assim como aos outros com os quais se relacionava da melhor forma que podia. Solícito, amistoso, poder-se-ia dizer bondoso. Eram várias as qualidades do garoto admirado por todos na rua onde morava. Era um líder verdadeiro. Desde cedo a carreira política, no bom sentido, nele se mostrava aos olhos de admiradores. Vizinhos, colegas de escola, até mesmo os mais idosos nele vislumbravam  voos mais altos que um simples advogado porta-de-cadeia.  Ou qualquer que montasse um escritório num bairro grã-fino. E fosse bem sucedido seja em causas cíveis ou criminais.

Chiquinho tinha em verdade um grande futuro pela frente.

Uma vez feito profissional das leis não deixou de estudar. Fez mestrado. Mais tarde tornou-se doutor.

Mas o jovem Chiquinho queria mais. As ciências politicas a ele inspiravam como as crônicas inspiram o escritor.

Antes de completar vinte e cinco anos um amigo de infância em seus ouvidos assoprou: “ por que você não entra na política? Qualidades você tem. Tenho certeza, caso você se lance candidato a vereador, será por certo vencedor”.

Chico refletiu sobre o conselho do amigo. Por que não? O sim venceu a dúvida.

Já no próximo outubro, no primeiro pleito, quase, por alguns votos de nada, Chiquinho não foi eleito edil. Mas não desanimou.

Na segunda chance foi o mais votado para a câmara municipal de sua cidade. Uma linda cidade do interior.

Já na primeira reunião, entre colegas vereadores, a primeira desilusão.

Cheio de projetos fervilhando em sua cabecinha preparada o correto vereador percebeu que tudo aquilo não passava de um lamaçal imenso.

Tudo que ele propunha era engavetado. A coletividade não era o foco das atenções dos demais edis. Eles só pensavam em nomear ruas, pagar contas de luz e água dos eleitores encabrestados, falar bem ou mal do prefeito, com o qual mantinham conchavos de lealdade, e outras coisas mais que desagradavam o neófito vereador.

Um ano se passou. Dois, três, o quarto ano adentrou.

Não era bem aquilo que o doutor Chiquinho sonhava. A carreira política com a qual jurava ser o caminho para o bem do país que amava acima de tudo.

Eram tantas as podriqueiras, tamanha a corrupção, que o lodaçal cheirava mal às narinas sensíveis do preparado edil.

Numa reunião, da qual se lembra até hoje, quando chegou-lhe a vez de usar a tribuna, Chiquinho propôs a redução do próprio salário. Acreditava ele que as horas que os vereadores dedicavam a comunidade deveriam ser alongadas. No que foi voto vencido. Mas não se convenceu. Voltou a tocar na tecla. Mais uma vez discursou aos ouvidos moucos. Passou a ser figura não grata naquela casa chamada câmara de edis.

Ao final do mandato, já descrente de tudo e de todos, decidiu não concorrer ao próximo pleito.

A política com qual sonhava deveria ser diferente. Por esta razão saiu descontente. Voltou a banca de advocacia. Onde se fez profissional respeitado. Adquiriu incontáveis clientes. Que mais uma vez o aconselharam a seguir a carreira política. Da qual se viu descrente.

Até hoje, ao passar perto do escritório do advogado Francisco, percebo uma placa com a seguinte inscrição: “ aqui trabalha um ex- político desconsolado com a carreira. O edil Chico Desconsolo não existe mais. E como ele muitos desistiram deste caminho tortuoso. Quem sabe algum dia mude? Só depende da gente. Mas pena que a maioria não pensa da mesma maneira”.

E quantos Chicos Desconsolos existem por aí? Não existem estatísticas confiáveis. Como existem poucos políticos confiáveis. Pena.

 

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